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Perdendo para nós mesmos

- Isso está correto? – o praticante perguntou após realizar um chute que tinha acabado de aprender.
- Melhorou? - insistia - Estou achando que alguma coisa está errada...


Em determinados momentos, a insegurança toma conta de nossa mente. Seriam quando estamos fazendo coisas novas ou nas horas das atividades que já conhecemos bem?

- Conviva um pouco com a nova situação e espere um pouco para se familiarizar com a novidade. Treine mais com o corpo e a mente – deixe a língua um pouco de lado, ela não faz parte do esforço necessário ao exercício.

Nos defendemos constantemente de várias circunstâncias que podem afetar nosso bem estar. Nosso instinto de sobrevivência nos leva a atitudes incompatíveis com várias circunstâncias – menores ou maiores do que a verdadeiramente necessária. Essa atitude vem de nós mesmos e torna-se um dos desafios no caminho da arte marcial.
“Sem harmonia no exército, não pode haver formação de batalha”
A Arte da Guerra, Sun Tzu
Lutamos internamente contra nossa insegurança. Enquanto existir um equilíbrio saudável entre dúvida e realização, tudo está bem. Quando o nosso “eu-inimigo” vence e atrapalha a evolução, perdemos para nós mesmos.

(as artes servem para isso: um ambiente criativo, onde descobrimos e ampliamos nossos potenciais ocultos e praticamos uma guerra simulada. Saímos desses lugares com a sensação imediata de termos ampliado nossas habilidades necessárias para o bom combate)

Burocracia criativa?!

Ontem uma aluna trouxe seu filho pequeno para iniciar-se no Kungfu. Como toda criança, movimentava-se e falava sem parar, exigindo algumas estratégias para que a aula pudesse ser conduzida – o que aconteceu, sem maiores dificuldades. Em determinado momento, o ingênuo jovem se sentiu no direito de ensinar “seus exercícios” para que pudéssemos praticar juntos e portanto, partimos para seu primeiro exercício (para o qual devo confessar, não tinha muitas expectativas positivas).- Que criativo...- foi o que pensei. Notei que o exercício era relativamente complexo e, apesar de obviamente não envolver técnicas marciais, desenvolveria qualidades necessárias para tanto. – Acertou por acaso – completei meu pensamento, estando errado pela segunda vez. O que se seguiu foi uma série de bons exercícios, considerando-se a idade do “professor”.

Analisando a questão, acredito que uma pequena parcela das idéias veio de suas poucas experiências sociais – jogos escolares, outros cursos, televisão. Mas o importante é que a parcela predominante veio de sua criatividade e ausência de barreiras em torno dela.
Os mestres têm a criatividade das crianças
Os estilos de artes marciais foram criados por pessoas que se basearam em informações já existentes para multiplicar a forma e intenção do que deveria ser feito. Os mestres que deram origem a novos estilos e práticas acreditavam em sua criatividade, mais do que em sua técnica (afinal o que eles possuíam veio da mente de outras pessoas). O novo (fruto da criatividade) melhor que o antigo.
Por que será que bloqueamos tanto nossa criatividade? Considerando que uma criança – sem as mesmas experiências, habilidades e recursos de um adulto – realiza feitos fantásticos, então onde não poderá chegar aquele que libera seu poder criativo?

O passo do pensamento







A primeira pergunta que normalmente é feita por alguém que procura uma academia é:


- O que devo fazer para começar a treinar?

Uma jornada de mil milhas começa com um único passo - muita gente já ouviu isso. Mas qual é esse primeiro passo? Fazer algum tipo de inscrição, comprar uma roupa adequada aos exercícios ou efetuar o pagamento?A consciência do primeiro passo é muito importante. Apesar do foco ser muito importante, começamos muitas jornadas para caminhos diferentes em nossa vida. Saber como começar ajuda à não nos projetarmos para o caminho errado e, quando errarmos, não desistirmos. Podemos voltar aos passos iniciais – aqueles passos que não precisamos dar novamente - e facilitar nosso recomeço.
O primeiro passo é a escolha
Da arte marcial, ou do trabalho, do amigo ou profissão. Não é possível ir ou fazer nada sem a decisão prévia. Isso quer dizer que, mesmo que os passos seguintes não agradem – a academia não parece um bom lugar, aquela pessoa não lhe deu a devida atenção – basta voltar alguns passos para a base firme da escolha, da decisão pessoal. E procurar, insistir mais.
Aquele que está se inscrevendo em uma academia já está praticando - já deu o passo da escolha. Ele só precisa saber o que vai fazer para continuar seu caminho.

Lutando com palavras

Segundo a ciência conhecida como semiologia, a palavra é o recurso de comunicação que tem seu estudo mais desenvolvido. Entendemos melhor como expressar mensagens com palavras do que com outros meio: gestos, mímicas, acessórios.


Em dado momento de uma prática, eu esperava que uma aluna lembrasse sozinha de determinado movimento sem que eu o fizesse novamente. Dessa forma, além da maior compreensão da técnica já ensinada, aumentaria sua sensação de realização pessoal e por conseqüência, sua dedicação futura aos novos passos. Infelizmente isso não estava acontecendo.

- Está errado.

- Errado? Aonde? – mas eu nada respondi e ela continuou a pensar, - não consigo mesmo.

Era um erro simples, ela estava trocando a perna (era um soco vertical e ela estava com a perna errada na frente) e não poderia dar prosseguir para o complemento da técnica, dessa forma. Eu não me dei por vencido e pedi:

- Me conte o que está fazendo. Está com a perna... Qual perna...?

Tratando-se de uma aluna bastante detalhista e dedicada, sua resposta foi bem completa. O efeito foi imediato: não só “enxergou” melhor a situação, quanto concluiu sozinha o propósito de usar as palavras e corrigiu a perna trocada.

Muitas vezes enfrentamos problemas e preferimos não estender um assunto ou sequer começar uma conversa. O extremo do absurdo e incompetência é quando uma situação nos leva para uma briga, uma agressão física.

Se a intenção é vencer nosso oponente, por que não usar técnicas mais avançadas?
(se vencer alguém for realmente necessário e, em algum momento visto dessa forma)

“O verdadeiro mestre vence sem lutar”. Ele tem várias ferramentas mais poderosas – uma delas são suas palavras.

A verdade é mais profunda

Historiadores que estudam a origem das artes marciais realizam uma primeira classificação entre elas: artes marciais e luta. As lutas foram criadas com o propósito de combate, a fim de garantir a segurança dos soldados nas batalhas e, portanto, têm técnicas mais agressivas e eficazes. A arte marcial se volta ao esporte, ao treino como fim de evolução física, espiritual e prática de integração.

Algumas técnicas são vistas como mais agressivas – tais como o Jiu-Jitsu e o boxe – e outras, mais pacíficas – como o Tai Chi e o Aikidô. É verdade que todas elas tiveram focos mais específicos na origem de seus propósitos – alguns em defesa e outros em ataque, alguns em luta e outros em esporte. Mas...

... qual técnica nos dias atuais é voltada para a guerra?

Os estudiosos e mestres concordam nestes dois objetivos originais dos esportes de combate corpo-a-corpo: guerra e esporte. Portanto, a finalidade do praticante que não estiver voltado para a guerra é o esporte – a integração social, obter resultados físicos, mentais e espirituais. Qual arte marcial agressiva pode atingir esse objetivo? Qual academia séria pode ensinar uma arte marcial voltada para a luta e esperar que seus alunos cumpram a lei?

Existe uma exceção a ser analisada com mais cuidado: o lutador profissional. Mas será que ele entende que participa de uma guerra ou de um programa de entretenimento? Ele busca matar ou apenas vencer seu oponente? Mas isso é assunto para outro post.

O objetivo real é o que verdadeiramente motiva um trabalho. Seria útil buscar uma academia para aprender a atacar ou se defender de alguém? Mesmo ao entender a defesa pessoal como algo que venha a ser necessário, qual a regularidade dessa necessidade?

Não se voltando para a guerra, para a derrota de um suposto inimigo, o esporte de combate consegue atentar para sua real função social e cumprir melhor seu papel. Independente da origem, tipo ou estilo, uma academia ensinará artes marciais quando entender o caráter esportivo de sua prática - levando a arte marcial à um outro estágio de compreensão, tanto por parte do instrutor, quanto por parte do praticante.

Descobrir o real motivo de tudo, leva a decisões mais firmes. Podemos deixar de lado coisas inúteis e nos dedicar melhor ao que é importante.

O poder da semente

A concepção dos seres começa a partir de algo minúsculo, que em comparação com o resultado final, é insignificante em termos de tamanho. Compare um ser humano adulto com o embrião (melhor, com a célula-ovo), compare uma árvore com sua semente. Apesar disso, todas as informações daquele ser vivo estão presentes naquela origem.

Acho que estou fazendo errado - disse o aluno, ao realizar uma seqüência de exercícios. Sim, está – eu disse – o começo está errado. O começo!? - era justamente onde ele tinha mais segurança.
- Você tem certeza dessa parte? – Eu estava me referindo ao começo.
- Mais ou menos. Acho que tenho.
- Essa pequena dúvida leva você a se conduzir para uma grande dúvida no desenrolar da movimentação. Se você não tiver bases firmes para começar e concluir o exercício, não conclua. Mantenha-se no ponto de dificuldades, até corrigí-las. Sun Tzu, um grande estrategista militar chinês, disse “Se seu inimigo for superior a você, fuja”, não entre em combates onde você vai perder....

...Qual é o sentido de se dirigir para o caminho da derrota?

Alguém que começa a azulejar uma parede com uma diferença de milímetros no posicionamento do azulejo, acaba levando a um erro gigantesco no final. Alguém que aplica em fundos mútuos não consegue ficar rico e quando perde dinheiro, não sabe explicar o porquê. O combate é vencido na preparação, nos treinos. A seqüência de evolução no treino, no exercício, também. Antes de ir para o passo seguinte, reforce o primeiro. Dez técnicas de braço não são tão úteis quanto uma que possa ser aplicada de forma fluente.

Nossa pressa de acumular conhecimentos nos faz esquecer da qualidade e utilidade. Onde isso leva? A intenção de acumular, deixa a qualidade e utilidade da vida de lado.

Chutando com os braços

Um bom golpe é dado com o corpo inteiro. Para um bom chute, é necessário que os quadris girem antes. Esse movimento de torção que leva os quadris a se movimentarem começa nos braços, que fazem um leve movimento na direção adequada à espiral que dará origem a um bom chute.

Um dos cientistas mais renomados da Inglaterra realizou um estudo sobre a castanheira na Amazônia, chegando à conclusão que um dos programas governamentais de replantio era inútil. A castanheira somente produz seus frutos em seu ambiente natural, pois depende da polinização de uma abelha (o programa era baseado no replantio da árvore em áreas desmatadas, onde a abelha não existia). Um exemplo da necessidade da biodiversidade para a sobrevivência de cada espécie e também da importância da participação de todos para a solução dos problemas do mundo. Bill Gates (Microsoft) também sugeria uma analogia parecida, onde as empresas possuem uma espiral - positiva ou negativa - fruto de todas as realizações feitas dentro dela, vindas de todos funcionários e proprietários.

Um bom golpe é resultado de trabalho coletivo

Um chute precisa dos braços, um soco precisa da movimentação do quadril e pernas. Um campeonato não é ganho somente pelo lutador, uma empresa não depende só de seu chefe ou de seu empregado, o sucesso de um país também depende da atitude de seu povo. Apesar do foco no pé, precisamos da cintura, do abdômen, dos braços e da cabeça para um bom chute.

Para vencer uma competição precisamos do apoio da família, da atenção do treinador, da participação dos colegas de treino e principalmente, de nosso adversário. Devemos buscar esses desafios não para nos tornarmos orgulhosos de nossos feitos e sim, lembrarmos o quanto precisamos ser humildes.

Meditação em movimento

As artes marciais possuem seqüências de movimentos formadas por chutes, socos e outras técnicas básicas – conhecidas por “Katis” ou “Katas”, por exemplo. Muita ênfase se dá à forma correta dos movimentos, a postura correta, a posição de um soco ou chute e a movimentação, o andar ao longo do treino. Trata-se do aspecto Yang do treino, do aspecto externo.
Os praticantes mais avançados sabem que existem movimentos Yang e Yin, mas é importante não confundir o foco em um aspecto, o físico – mesma que seja Yin dentro de Yang, técnicas leves e pesadas em um treino físico – com o foco do praticante em dois aspectos – físico e mental.

Devem existir o foco interior e exterior durante todo o treino.

Aquele que realiza movimentos – sejam Yang, de um estilo Tigre de Kungfu, por exemplo, ou Yin, de Tai Chi – está realizando um treino externo, Yang. Quando sua mente acompanha sua intenção – visualizando a aplicação do golpe e o oponente na sua frente – ele realiza um treino Yin, interno, mental. Além de criar esse objetivo mental, devemos sentir e controlar nossa ansiedade, nosso desconforto com o cansaço, nossa preocupação em impressionar quem nos assiste - existem muitos objetivos mentais para praticar junto com o físico.

A arte marcial muitas vezes tende ao prático, diminuindo o treino mental. Apesar de sua existência (mental) natural em qualquer exercício, uma atenção maior (na mente) gera resultados maiores e surpreendentes. Isso remete ao Budismo – a atenção correta, a intenção correta.

Nos estudos – escolas de ensino fundamental, faculdades, cursos de línguas – ocorre o oposto. O foco é muito interno, mental e pouco o externo, físico. A aplicação de todo ensino no desenrolar do aprendizado é fundamental para uma melhor assimilação e bem estar no aprendizado regular – alunos que constroem coisas a partir do que foi ensinado.

Devemos sempre criar objetivos físicos para o aprendizado mental e o contrário – objetivos mentais para o aprendizado físico.

Onde é o começo?

Durante a prática de uma seqüência de movimentos, a aluna descobriu as dificuldades presentes no final deste exercício. Apesar de realizar os movimentos iniciais de forma adequada, os últimos às vezes nem eram lembrados, impossibilitando até que voltasse a praticá-los.


Quando chego nesta parte, eu sempre me perco - disse a jovem. Sua ansiedade aumentava nestes momentos.
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Existe fim no começo e começo no fim

Segundo o princípio de que tudo está em tudo - existe escuridão para exista a luz, existem guerras para que exista a paz - no fim também deve existir o começo. Começar pelo fim transforma o resultado, equilibrando a parcela de tempo destinada à prática das últimas técnicas aprendidas com as já fixadas. Não mantenha o pensamento somente no seu treino de hoje. Seu treino é composto por tudo que você já fez, no aprendizado ao qual se dedica.

Quantas vezes fazemos o começo - fazer a mesma coisa - e quantas o fim - as coisas novas?